Alice Guy-Blaché história cinema

Alice Guy-Blaché: a história esquecida da primeira cineasta do mundo

Victor Lages

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30 de dezembro de 2020

Quem estuda um pouquinho de cinema sabe quem são os Irmãos Lumière ou George Méliès. Quem assiste a filmes com empenho conhece o trabalho de Truffaut ou Godard. E até quem não é dedicado na sétima arte sabe distinguir Spielberg de Scorsese. Mas, então, por que tão pouca gente sabe quem foi Alice Guy-Blaché? Por que tantos desconhecem o pioneirismo da mulher que inventou o cinema?

Vamos viajar para Paris, exatamente para o ano de 1895. Na época, a jovem de 21 anos trabalhava há pouco tempo como secretária do fotógrafo León Gaumont. Então, devido ao seu desempenho na empresa, foi convidada para um evento que mudou sua vida. Assim como a de todas as pessoas que gostam de assistir a filmes. Alice estava lá, no Salão Grand Café, no dia 28 de dezembro, quando Auguste e Louis Lumière apresentaram sua invenção. O cinematógrafo, um aparelho que permitia gravar imagens em movimento.

Primeiro filme de ficção da história

Foi assistindo ao vídeo de operários saindo de uma fábrica que a moça pensou em contar histórias a partir daquela câmera e pediu para Gaumont a máquina emprestada. Surgia, no jardim de sua casa, “A Fada do Repolho”, o primeiro filme de ficção da história. O curta durava menos de um minuto, mas trazia a narrativa pioneira de uma fada mostrando que os bebês nascem de repolhos. Dessa forma, se tornou a primeira produção fantasiosa e o primeiro roteiro escrito e produzido, com tons teatrais misturados na estrutura.

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O filme foi um sucesso e estimulou tanto a criatividade do público, quanto da própria Alice Guy-Blaché, que tirou da cabeça dezenas de histórias guardadas apenas na sua imaginação. E todas tinham começo, meio e fim, tendo aí já inaugurado o conceito de narratividade da sétima arte, algo que Méliès não fazia tanto em suas obras.

A partir dos curtas, ela começou a produzir média-metragens, lançando “A Vida de Cristo” em 1906. Com meia hora de duração, mais de 300 figurantes e usando efeitos especiais revolucionários para a época, Alice queria mais para seu mundo cinematográfico. Após casar com seu colega de trabalho Herbert Blaché e mudar-se para Nova Iorque, fundou com o marido a Companhia Solax. Com isso, foi a primeira mulher a dirigir um estúdio de cinema. Antes mesmo de Hollywood existir. Pela Solax, produziu entre 600 e mil filmes, de faroestes a comédias românticas e até ficção científica.

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Interrupção prematura da carreira

Mas foi o próprio Blaché que estragou o estopim da cineasta. Através da infidelidade, do álcool, da insegurança e da falta de experiência, Herbert afundou a Solax e seu casamento. Ela, então, volta para a França e se afasta totalmente do cinema. Isso porque, além de se sentir fracassada, descobriu que seus filmes não estavam creditados em seu nome. Além disso, quase todas as suas obras estavam perdidas e espalhadas pelo mundo, de modo que seria um esforço tolo tentar recuperá-las.

Contudo, a cineasta ainda voltou aos Estados Unidos para fazer um último filme. No entanto, a obra não vingou,  o que a fez abandonar definitivamente sua maior arte, arrependida por não ter guardado os direitos autorais de suas centenas de obras. Assim, em Nova Jersey, no dia 24 de março de 1968, a triste e solitária Alice Guy-Blaché faleceu num asilo de idosos aos 94 anos de idade. Seu nome foi esquecido e seu legado apagado.

Reconhecimento para Alice Guy-Blaché

Ou não. Nos anos 80, sua autobiografia, “The Memoirs of Alice Guy Blaché”, chegou ao continente norte-americano e lançou uma nova luz para sua genialidade. Isso reabriu uma janela para pesquisadores do cinema revisitarem a sua relevância para o cinema mundial e conseguirem resgatar cerca de 300 títulos perdidos.

Hoje, festivais de cinema, fundações, mostras oferecem prêmios em sua homenagem. Além disso, carregam sua memória em apresentações exclusivas, acarretando em uma reparação histórica com seu talento, ainda que lenta. Em 2008, foi criado o Alice Awards. Dois anos depois, a Academia restaurou um pouco da sua obra. Em 2011, seu nome foi postumamente incluído como membro do Sindicato dos Diretores. No ano seguinte, pelo centenário de criação da Solax, sua lápide foi trocada por uma mais digna.

No documentário “Be Natural” (2018), diretoras como Ava DuVernay (Selma e Olhos que Condenam) e Patty Jenkins (Mulher-Maravilha 1984), bem como a roteirista Diablo Cody (vencedora do Oscar por Juno) falam sobre cineastas que as influenciaram na sua carreira e se assustam quando ouvem o nome de Alice e sua história. Mas se hoje temos obras de Alfred Hitchcock, Sofia Coppola, Pedro Almodóvar, Agnès Varda, Federico Fellini, Jane Campion, entre milhares demais, é só porque, um dia, Alice Guy-Blaché teve uma ideia e resolveu ousar. Então, se hoje amamos cinema, podemos nos considerar filhos e filhas de Alice.

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Victor Lages

Feito no coração do Piauí, onde começou sua aventura cinematográfica depois de descobrir as maravilhas do filme “Crepúsculo dos deuses”, o jornalista Victor Lages ama tanto a sétima arte que a leva para tudo em sua vida: de filosofias do cotidiano à sua dissertação de mestrado.
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