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CRÍTICA | ‘Armas na Mesa’ é um thriller político clássico e tem atuação brilhante de Jessica Chastain

Iniciarei esta crítica de uma forma diferente. Vocês sabem o que é sentir tensão de verdade? Muitas coisas podem nos deixar nervosos ou tensos. Até mesmo episódios corriqueiros. A última vez que isto aconteceu comigo foi por uma coisa aparentemente banal. Eu tinha um compromisso inadiável, cedo, longe da minha casa. Não saí na hora que pretendia, peguei trânsito até o metrô e, ainda por cima, o trem demorou mais do que deveria em algumas estações. A hora ia passando, aquilo ia me deixando bastante tenso. Eu não conseguia tirar os olhos do relógio e parar de pensar no que aconteceria se não chegasse a tempo. No fim, tudo deu certo. Mas, há muito eu não sabia o que era ficar daquele jeito. Histórias verídicas são muito ruins, porque, às vezes, não temos como fazer nada. Somos o personagem principal de um folhetim roteirizado por um sádico. Muito melhor é ver esta tensão toda em um filme, com a consciência da nossa posição de simples espectadores. Desta forma, é bom e prazeroso. E foi assim que me senti assistindo à Armas na Mesa (Miss Sloane), dirigido por John Madden e estrelado por Jessica Chastain.

Elizabeth Sloane (Chastain) é a mais temida lobista dos Estados Unidos. Dona de uma grande força nos bastidores da politicagem de Washington, ela abdicou de sua vida pessoal para vencer profissionalmente. É alguém que acredita piamente na máxima de que os fins justificam os meios e que não tem vergonha em usar os outros para alcançar os seus objetivos, seja uma colega de trabalho ou um garoto de programa, este último quando o intuito é dar vazão ao tesão reprimido. Tudo corre tranquilamente na vida de Miss Sloane, como é mais conhecida, até se deparar com uma proposta que, por uma questão de princípios, não pode aceitar (sim, ela tem princípios): comandar uma campanha baseada na imagem das mulheres e das mães para barrar uma lei anti-armamentista. Obrigada a dizer não aos seus chefes, George Dupont (Sam Waterston) e Pat Connors (Michael Stuhlbarg), a protagonista se demite e vai trabalhar na agência de Rodolfo Schmidt (Mark Strong), onde terá a missão de aprovar a tal lei no congresso.

Os fãs de John Grisham, escritor norte-americano famoso pelos tensos thrillers que misturam política com o ambiente jurídico e referenciado em uma cena onde Sloane está lendo um livro seu, provavelmente, irão gostar deste longa. Como um romance do autor, a história tem a capacidade de prender o público do seu início ao fim. São muitas as camadas que vão se desnudando, aos pouquinhos, e mostrando o quão iludidos estávamos. No mise en scène urdido por Jonathan Perera, roteirista de primeira viagem, nada é o que parece. Heróis e vilões, se é que alguém pode receber este epíteto, são iguais. Homens forjados no mesmo barro, assim, será difícil para qualquer pessoa que siga os preceitos estritos da ética tomar partido de algum lado. Neste aspecto, o filme me lembra bastante duas ótimas obras relativamente recentes: “O Júri” (2003) e “Intrigas de Estado” (2009). Me recordo que, ao terminar de assisti-las, fui tomado pela mesma sensação de incredulidade em relação a alguns acontecimentos, como ocorre aqui.

Para o sucesso desta empreitada, era necessário um artífice, no caso, uma intérprete, que fosse capaz de dar vida às palavras do roteirista. Como John Cusack (O Júri) e Ben Affleck (Intrigas de Estado), Jéssica Chastain conseguiu traduzir com precisão de gestos e ações a ambiguidade misteriosa existente na história pregressa da personagem. Não é a primeira vez que ela faz uma protagonista deste naipe. Em “O Ano Mais Violento” (2014), de J.C. Chandor, a atriz também viveu uma mulher capaz de qualquer coisa para alcançar seus objetivos, só que com motivações diferentes. Aqui, ela aprimorou sua interpretação e se dois anos atrás já merecia uma indicação ao Oscar, agora era meio que uma obrigação que a Academia se furtou a cumprir. Miss Chastain tinha uma vaga entre a cinco finalistas. Ela e Amy Adams (A Chegada). No lugar de quem? Isto pouco importa.

Apesar de Armas na Mesa apostar grande parte das suas fichas no roteiro e no conjunto de boas atuações, uma vez que o elenco de apoio com John Lithgow, Gugu Mbatha-Raw e Alison Pill, em papéis chaves para os desdobramentos do enredo, dá o suporte necessário para Jéssica Chastain brilhar, o filme não se resume apenas a estes aspectos. A direção de John Madden, de “Shakespeare Apaixonado” (1998), é conservadora, sem correr riscos, como aconteceu com este crítico ao sair correndo atrasado para o seu compromisso matutino. Neste caso, conservadora é uma palavra elogiosa. O cineasta poderia ter ousado ou blefado, tal qual Miss Sloane, já que acertar ou errar são consequências naturais do jogo. Contudo, ele preferiu apostar no material que tinha em mãos e rodar um thriller político clássico, com um desfecho daqueles que ficam ressoando por muito tempo na cabeça dos espectadores.

Desliguem os celulares e excelente diversão.

TRAILER:

https://youtu.be/591hCwxsNsM

FICHA TÉCNICA:

Título original: Miss Sloane
Direção: John Madden
Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Gugu Mbatha-Raw
Distribuição: Paris
Data de estreia: qui, 02/02/17
País: Reino Unido, Estados Unidos, França
Gênero: drama
Ano de produção: 2016
Duração: 132 minutos
Classificação: 14 anos

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