Crítica de Filme | A Ilha do Milharal

Leandro Stenlånd

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27 de outubro de 2015

”A Ilha do Milharal”, de  George Ovashvili, nos posiciona entre 1992 e 1993, na guerra de Abecásia contra Geórgia, momentos após o fim da União Soviética. Dentre este conflito pouco lembrado o filme se instala: um senhor, que para fugir dos horrores da guerra, decide se mudar para uma pequena ‘ilha’, no rio Enguri, junto com sua neta (Mariam Buturishvili) , para plantar milho.

Com mais ou menos vinte minutos de ”demora” para surgir um primeiro diálogo (que ao ‘resto’ do longa também é escasso), ”A Ilha do Milharal” é um filme contemplativo em sua essência, cheio de subjetividades e uma história intensa (apesar de estar em pano de fundo ao enredo), mas do qual se importa em focar em suas duas personagens apresentadas.

Os dois têm um objetivo: construir um casa, sobrevivendo com o mínimo, e a cinematografia reverbera isto.

Digo reverbera pois vemos toda a construção da pequena cabana, do começo ao fim, algo que se mostra de primeiro momento com certa estranheza, mas depois flui de modo magistral. Presenciamos o árduo trabalho, o levantar das madeiras, uma monotonia, como disse, contemplativa, assim como a vida deles (embora não possam contemplar quase nada pelo momento)

Para entender melhor: ”A Ilha do Milharal” é Cinema puro, pois se utiliza de seus recursos e se isenta quase completamente de diálogos, criando mesmo assim uma narrativa. O desenvolvimento de personagens se dá por olhares secos, cansados, amedrontados: a neta com um olhar suspeito do avô, e este com uma visão de que sempre enxerga algo ameaçador.

milho foto

O filme se utiliza de pequenas, mas valiosas, metáforas ao longo de seus minutos, para que estas somem os atos criados: como o caso da neta, uma menina totalmente retraída em sua existência, amadurecendo aos poucos, tem seu sangue derramado certo momento em uma folha da plantação, e sua boneca de pano, que tanto segurava, é deixava de lado por exemplo.

O filme recebe um ‘gás’ diante de aparições de personagens secundários: pequenos grupos de militares, de ambos os lados da guerra, acabam visitando a minimalista e recusa casa, com objetivos diferentes uns dos outros, aparentemente, e tal fato faz com que estas cenas sejam recheadas de um pequeno suspense.

Com assuntos territoriais fora do primeiro plano mas mesmo assim bem utilizados, o longa se entrega como um Cinema mais experimental, talvez de difícil visualização à alguns que esperam algo totalmente diferente.

Com entonações que mudam e com diversas mensagens sobrepostas e uma boa câmera panorâmica, ”A Ilha do Milharal”, é uma construção bela das desconstruções do ser humano.


FICHA TÉCNICA
Gênero: Drama
Direção: George Ovashvili
Roteiro: George Ovashvili, Nugzar Shataidze, Roelof Jan Minneboo
Elenco: Ilyas Salman, Irakli Samushia, Mariam Buturishvili, Tamer Levent
Produção: Eike Goreczka, George Ovashvili, Guillaume de Seille, Karla Stojáková, Nino Devdariani
Fotografia: Elemér Ragályi
Montador: Sun-min Kim
Trilha Sonora: Iosif Bardanashvili
Duração: 100 min.
Ano: 2014
País: Alemanha / Cazaquistão / França / Georgia / Hungria / República Checa
Cor: Colorido
Estreia: 05/11/2015 (Brasil)
Distribuidora: Zeta Filmes
Estúdio: 42film / Arizona Films / Axman Productions / George Ovashvili Production

Leandro Stenlånd

Leandro não é jornalista, não é formado em nada disso, aliás em nada! Seu conhecimento é breve e de forma autodidata. Sim, é complicado entender essa forma abismal e nada formal de se viver. Talvez seja esse estilo BYRON de ser, sem ter medo de ser feliz da forma mais romântica possível! Ser libriano com ascendente em peixes não é nada fácil meus amigos! Nunca foi...nunca será!
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