‘Expresso 2222’ | 50 anos de embarques e desembarques

‘Expresso 2222’ | 50 anos de embarques e desembarques

Em 2022, vários álbuns clássicos fazem bodas de diamantes, mostrando a sua relevância, complexidade e atualidade. Acabou Chorare, dos Novos Baianos, assim como o lendário Clube da Esquina só reforçam o intenso processo criativo no fim dos anos 1960 e início dos 1970 no Brasil, período que marcou uma profunda transição não apenas local, mas também mundial em relação a crenças, energias e novas formas de redefinir a existência e a realidade.

Contudo, um outro enorme trabalho talvez mereça um destaque especial: trata-se de Expresso 2222, do grande orixá brasileiro Gilberto Gil. O sexto álbum de estúdio do cantor e compositor baiano chegou recheado de histórias, lendas e uma grande dose de influências musicais, sociais e, porque não dizer, místicas (basta vez a extensa referência ao número 2 em várias músicas).

À época, Gil e Caetano ainda estavam no exílio em Londres, consequência da terrível ditadura militar e da inexplicável censura a toda forma de arte considerada subversiva. O LP foi, de acordo com o próprio artista, um mergulho em suas raízes. Fato em si comprovado pela capa, na qual há uma foto de Gil ainda criança.

Expresso 2222 Gilberto Gil capa álbum disco

Psicologia Junguiana

Sob a produção de Guilherme Araújo, coordenação do gigantesco Roberto Menescal e direção musical do próprio Gilberto Gil, o disco foi intitulado Expresso 2222 pela mídia da época. Afinal, era apenas esse registro escrito que havia na capa do álbum. Para muitos críticos da época, foi uma espécie de profecia que uniu o passado e o futuro pessoal artista, fundido com o coletivo e imaginário brasileiros.

Duas canções se destacam e parecem conter algo que, com muita humildade e bastante curiosidade, pode ser revisto à luz da Psicologia Junguiana.

Expresso 2222: A Metáfora do Trem

A canção que dá nome ao disco seria uma espécie de homenagem de Gil ao trem que ele pegou quando saiu de Ituaçu, uma cidadezinha no interior da Bahia, até Salvador. Ele, aliás, havia nascido na capital soteropolitana, mas precisou migrar para a cidadela por conta do trabalho e ofício do pai, que era médico.

Contudo, ouvindo mais de perto, a letra parece ter levado o autor a um ponto no tempo futuro, quando faz menção a todo conteúdo inconsciente que havia na psique das pessoas acerca da fatídica virada para os anos 2000. É óbvio que uma mudança de século sempre gerou imenso rebuliço na mente dos indivíduos, mais ainda nas infinitas possibilidades que isso poderia produzir. Mas, aqui, Gil parece ter mergulhado um pouco mais fundo, recriando a velha metáfora do trem que representa a vida (ou o além-vida).

Em um dos trechos, ouve-se:

“Segundo quem já andou no Expresso
Lá pelo ano 2000 fica a tal
Estação final do percurso-vida
Na terra-mãe concebida
De vento, de fogo, de água e sal
De água e sal, de água e sal
Ô, menina, de água e sal”

Parece que ele já imaginava o grande salto que aconteceria anos depois, e que marcaria para sempre a história da humanidade. Ou seja, o futuro tecnológico que se, paradoxalmente, é um reflexo luminoso e sombrio da natureza humana. Ainda há o trecho:

“Nunca se chega no Cristo concreto
De matéria ou qualquer coisa real
Depois de 2001 e 2 e tempo afora
O Cristo é como quem foi visto subindo ao céu
Oi, subindo ao céu
Num véu de nuvem brilhante subindo ao céu”

Em inúmeras tradições esotéricas e espiritualistas, há uma ideia que, posteriormente, foi desenvolvida por Jung: a de que Cristo, mais do que uma figura histórica, é um estado de espírito, uma consciência cósmica, uma ideia tal qual Buda ou Krishna.

Para Jung, inclusive, esse estado ou condição psicológica é a chamada individuação: o encontro com o Si-Mesmo ou Self, o centro, o qual tornaria um ser humano mais próximo de um ser divino. De fato, Gilberto Gil se sentia bastante próximo dessa realidade interior e exterior, afinal o álbum Expresso 2222 representou toda a sua força de retorno ao país.

Oriente: Pra Onde Tenha Sol

Outra canção fundamental de Expresso 2222 para a história pessoal e artística de Gilberto Gil é, sem dúvida, “Oriente”. Essa fazia parte do lado 2 do disco e parece ser um registro muito simbólico da união ideal entre os dois hemisférios culturais do planeta, ou entre a consciência e o inconsciente.

Na primeira estrofe, temos:

“Se oriente, rapaz
Pela constelação do Cruzeiro do Sul
Se oriente, rapaz
Pela constatação de que a aranha
Vive do que tece
Vê se não se esquece
Pela simples razão de que tudo merece
Consideração”

Logo no primeiro verso, é possível perceber a ambiguidade que o verbo orientar produz, empregada como um vocativo, mas também como um aviso de que é preciso seguir para o oriente. O próprio artista, no livro Gilberto Gil: Todas as Letras (organizado por Carlos Rennó), diz que a expressão lhe surgiu como uma voz, um sussurro que o fez escrever. No período anterior em que ficou preso, o cantor se dedicou a muitos estudos e práticas ditas alternativas, tais quais a Yoga, a Alimentação Macrobiótica, além do Taoísmo e do I-Ching.

Sincronicamente, Jung, quase 50 anos antes, foi um dos precursores dos estudos comparativos com o oriente no mundo ocidental, juntamente com Richard Wilhelm. Tal pensamento oriental tinha como premissas coisas que, para o ocidente, ainda era de difícil compreensão, como a ideia do Yin/Yang, o dualismo natural da vida e o caminho da não-ação. Isso, naturalmente, sem deixar de olhar para o Cruzeiro do Sul, a cruz, a simbologia do cristianismo.

Na segunda estrofe, temos:

“Considere, rapaz
A possibilidade de ir pro Japão
Num cargueiro do Lloyd lavando o porão
Pela curiosidade de ver
Onde o sol se esconde
Vê se compreende
Pela simples razão de que tudo depende
De determinação”

O título da música fala do ‘oriente’, onde o sol nasce, mas aqui também é dito onde ele se esconde. Isto é, onde os segredos se iniciam e se encerram num ciclo eterno. Aliás, para se chegar lá, é preciso muita humildade, trabalho e desapego, lavando o porão de um navio, ou mergulhando em seu próprio porão interior. Só assim, com empenho, é possível fazer a viagem. Por fim, o verso mais enigmático:

“Determine, rapaz
Onde vai ser seu curso de pós-graduação
Se oriente, rapaz
Pela rotação da Terra em torno do Sol
Sorridente, rapaz
Pela continuidade do sonho de Adão”

Bem, que maneira mais ocidental de concretizar ou iniciar um caminho que a de fazer uma pós-graduação? Ou melhor, uma ampliação, uma busca pela sabedoria, pela compreensão de tudo. Assim com a Terra gira em torno do Sol, o indivíduo busca a sua iluminação, o seu caminho pelo autoconhecimento. E qual seria o sonho de Adão/de Eva? O retorno ao Paraíso perdido? A redenção? A finalidade de se tornarem imagem e semelhança do Criador/da Criadora?

Clássico e Atemporal

Enfim, o trabalho de Gilberto Gil como músico, compositor, pensador e profeta do futuro é como um oceano imenso e sem fim. Não se pode conhecer o mar apenas mergulhando no raso ou sentido o gosto salgado da água. Antes é preciso se afogar nas profundezas que escodem o tesouro sagrado.

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