kursk a última missão

‘Kursk: A Última Missão’ | CRÍTICA

Olga Zunino

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14 de janeiro de 2020

Kursk: A Última Missão (Kursk), drama dirigido por Thomas Vinterberg e produzido por Luc Besson é de uma relevância impressionante, mostrando como projetos políticos podem solapar o próprio valor da vida e criar tragédias que muito antes de serem sentidas precisam ser vistas e eternizadas em nossa memória.

Atualmente, o mundo tem presenciado momentos fervorosos de desavenças entre os EUA e o Irã. O medo do escalonamento de um conflito quase iminente parece unir diversos povos por meio das redes sociais.

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Interesses pessoais

A diplomacia tem sido encarada nas ciências políticas, assim como nas relações internacionais, como um reflexo interessante para analisar governos e estados. Sua presença ou sua ausência podem ser referenciais interessantes para entender quais interesses um determinado país está disposto a defender.

Entretanto, o que precisa ser alvo de grande seriedade – e muitas vezes vemos ser perdido entre os discursos oficiais – é o custo que determinadas decisões políticas internacionais podem ter na hora de resolver crises nacionais.

Kursk: A Última Missão demonstra o quanto projetos políticos podem cair em negação e destruir as próprias vidas que deveria defender.

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A trama

O diretor dinamarquês visa eternizar em seu longa-metragem a história do submarino russo K-141 que afundou no Mar de Barents em 12 de agosto de 2000 por conta de duas explosões internas causadas por condições precárias das instalações. Contudo, as explosões não mataram 23 marinheiros que tinham conseguido sobreviver no período de dois dias após o acidente.

A narrativa do filme gira em torno da história desses marinheiros e suas famílias em relação com as autoridades capazes de salvá-los. É apresentada para o telespectador a relação de companheirismo entre os marinheiros de forma bastante descontraída e como gradualmente essa relação de resistência mediante situações precárias é passada para suas esposas, quando estas começam a exigir respostas das autoridades russas.

Momentos históricos e dramáticos são apresentados a partir da transição do enquadramento clássico para a widescreen. Esse toque foi bastante interessante, pois a mudança de perspectiva torna mais fácil para o público imergir em uma história para além da cinematografia.

Guerra Fria

A tensão no filme é construída a partir das tentativas frustradas dos russos em conseguir o resgate dos marinheiros devido a estrutura sucateada das embarcações e a resistência em aceitar a ajuda de autoridades estrangeiras.

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Aliás, o acontecimento se dá 2 anos após o desmantelamento da URSS. O longa é capaz de mostrar o quanto a tensão da Guerra Fria ainda não tinha se dissipado, mas criado espaço para ressentimentos políticos. Afinal, a decisão de não aceitar a ajuda dos britânicos, liderados pelo Comodoro David Russel (Colin Firth) estava ligada aos esforços de defender a imagem da Rússia no exterior.

Kursk: A Última Missão consegue ser brutalmente honesto em mostrar as assimetrias de poder das autoridades com os marinheiros e os familiares, mas também é capaz de nos emocionar a partir de como esses dois grupos se transformam para encarar de cabeça erguida suas tragédias.

O companheirismo, doses espaçadas de humor e diálogos sobre o sacrifício por seus familiares, mostram uma faceta rica dos marinheiros, especialmente dando destaque a atuação de Michael Nyqvist e Magnus Millang. É possível ver o quanto estes, apesar de distantes, tentavam – cada um à sua maneira – ficarem próximos daqueles que amam.

Memórias

E Kursk: A Última Missão é exatamente sobre isso: a disputa de memória das autoridades russas que rejeitam a realidade para defender o patriotismo do país e a memória que os familiares e marinheiros buscam conservar para seus filhos. No final, a cena englobando o filho de Mikhail Kalekov, Misha Averin é capaz de dar um fim digno para uma história com uma proposta amarga, mas necessária.

Isso pode ser visto com mais clareza na relação dos familiares reivindicando respostas das autoridades. Enquanto as últimas compartilhavam discursos oficiais engessados e pouco verídicos, as esposas começavam a mudar suas perspectivas sobre seus próprios papéis na sociedade.

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Não mais submissas esperando pacientemente as partes masculinas resolverem, mas ativamente lutando pela vida dos próprios filhos e maridos. Essa construção de narrativa foi liderado por Tanya Kalekov, interpretada por Léa Seydoux.

Roteiro simples, mas debate importante

Kursk: A Última Missão só é capaz de pecar no passo simplificado do roteiro. Muitas vezes, o filme repete uma proposta já satisfatoriamente apresentada visualmente nos diálogos o que pode acabar soando bastante repetitivo.

Em resumo, a obra entrega um debate ainda importante sobre a necessidade de abandonar projetos que podem colocar o orgulho e o poder na frente da realidade inegociável do valor das vidas humanas. Se você busca compreender com sensibilidade a história das relações internacionais em contextos pouco amistosos, o longa não irá lhe decepcionar.

::: TRAILER

::: FICHA TÉCNICA

Título original: Kursk
Direção: Thomas Vinterberg
Elenco: Colin Firth, Matthias Schoenaerts, Léa Seydoux
Distribuição: Paris
Data de estreia: qui, 09/01/20
País: Bélgica, França
Gênero: drama
Ano de produção: 2019
Duração: 118 minutos
Classificação: 12 anos

Olga Zunino

Redatora freelancer e mestranda em Sociologia Política na Uerj, sou apaixonada por cinema, filmes e séries.
Livros e Quadrinhos ‘Operação Obscura’ ‘Coração Marcado’ ‘Lua de Mel com a Minha Mãe’ ‘Bubble’ ‘Rumspringa’ SEC AWARDS 2022 A Megera Domada – Crítica do Filme