Móbile Drink é a resistência do rock carioca

Guilherme Farizeli

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18 de dezembro de 2020

Primeiramente, não há exagero no título. A banda Móbile Drink está na estrada há muitos anos e é um dos ícones da resistência do rock no Rio de Janeiro. O vocalista Ronan Valadão é uma das figuras mais legais da cena, sempre incentivando e divulgando o trabalho das outras bandas. E, acima de tudo, sempre antenado para a importância do crescimento coletivo.

A saber, completam ainda a formação da Móbile Drink: Bruno Valadão (bateria), Felipe Pinheiro (baixo) e Alex Ketzer (guitarra). Em suas composições, a banda fala sobre questões existenciais, relacionamentos e situações que as pessoas passam no cotidiano. Em sua discografia, um álbum e quatro EPs lançados. O single “Se Desfez” é o mais recente lançamento e também um dos temas do papo super legal que batemos com os caras.

Confira!

Fala, galera! Obrigado por conversar com o ULTRAVERSO! Vocês estão na estrada a bastante tempo, nessa “luta” que é o underground. Conta pra gente como surgiu a ideia de formar a banda.

Ronan: Nós é que agradecemos o convite. Em 2002/03, começamos como quase todo mundo. Moleques querendo fazer um som. E, já nessa época, trabalhávamos em composições próprias.

Elas nos empolgavam a continuar criando mais música e assim seguimos por um bom tempo. Tocando e ensaiando sem, entretanto, almejar fazer shows. Mas o embrião da banda já estava formado.

E o nome Móbile Drink? Qual a história por trás dessa escolha?

Ronan: Fomos convidados a tocar num evento em Benfica, subúrbio do Rio de Janeiro. E o convite foi feito pelo amigo, do amigo, do amigo do dono do evento (risos). Um amigo nosso em comum nesse bolo, “agenciando”, nos contou: “fulano de tal está querendo banda pra tocar no evento dele”. Nós respondemos: “Fala pra fulano que tocamos”.

E, dois dias antes do evento, o “fulano” liga pra gente (nem sabemos como ele conseguiu nosso telefone) perguntando: “me fala o nome da banda para colocar na faixa”! O detalhe é que a banda ainda não tinha nome, pois estávamos ensaiando para o “show da nossa vida” e não pensamos nisso. Ele percebeu, riu e nos deu até o final do dia para criarmos o nome.

Papo vai, papo vem e o Bruno disse: “móbile”. O Marco, guitarrista da época, completou: “drink”. Pronto! Estávamos com um nome provisório. O trato era usar para aquele show e depois mudar. E assim surgiu Móbile Drink.

Ao longo da discografia de vocês, dá pra perceber uma pá de influências e uma sonoridade bem eclética. Como vocês definiriam o som da banda para um ouvinte novo, que ainda não tenha sido previamente apresentado ao trabalho de vocês?

Ronan: Já tentamos buscar algumas explicações para o nosso som. Mas, não tem jeito. É rock. Realmente, se analisarmos a trajetória da banda, em cada trabalho a gente soa diferente. E, além das influencias musicais de cada integrante, deixávamos (por inocência também) que pessoas do meio como produtores, radialistas e empresários dessem muito “pitaco”. Ouvíamos conselhos como “façam um som assim que dá mais certo” ou “façam isso que é mais fácil para vender”. Uma furada. Mas, com certeza, não temos vergonha de nada que fizemos até hoje.

O que a pessoa vai ouvir é o som que os quatro roqueiros malucos mais curtem fazer. O som feito de dentro para fora. Nós não aceitamos mais nenhuma interferência externa. Agora é só de dentro pra fora! Mas, temos produções que curtimos até hoje, mesmo que soem diferentes com o que fazemos atualmente.

Hoje, quando um novo fã escuta nosso novo single “Se Desfez”, ele está ouvindo o som daquilo que realmente queremos fazer hoje. O rock do nosso jeito. Com influencias “noventistas”, pegadas de guitarra pesadas soando para o metal, baixo pesado, baterias com linhas bem trabalhadas, etc.

Nesse sentido, quais as principais influências da Móbile Drink? Aquelas que vocês realmente percebem transmutadas de alguma forma no som de vocês?

Ronan: As referências são milhares pois ouvimos muita, mas muita coisa mesmo. No entanto, há sempre aquilo que nos molda mais, né!? Eu, por exemplo, curto muito The Doors e o grunge de Seattle.

Alex: bandas de metal, como Accept, Black Sabath.

Felipe: muito hard rock dos anos 80.

Bruno: bandas como Led Zeppelin, rock progressivo.

A galera do mundo do música tem sofrido bastante nesse ano de pandemia. Como está sendo o 2020 de vocês sob essa perspectiva?

Ronan: A pandemia atrapalhou bastante. Estávamos para começar a ensaiar com essa nossa nova formação, e tivemos que adiar, lógico, pela saúde e bem-estar de todos. Com isso, ficamos definindo novas metas e objetivos. Tínhamos duas músicas já gravadas de 2019, que tivemos que regravar as partes da guitarra. Levou um certo tempo, mas acabamos tendo um resultado muito satisfatório. Detalhe: Alex, nosso novo guitarrista, não tinha feito nenhum ensaio com a gente mas, mesmo assim, mandamos as gravações pra ele. E ele redefiniu o rumo das músicas, elevando-as em texturas e intensões harmônicas.

Nessa manobra de regravação, contamos com a mixagem de Marco Esteves, para deixar as músicas como queríamos. E o próximo passo foi pensar nos lançamentos delas. Usamos muita rede social pra manter os fãs ligados, antenados com a gente e restabelecer o nosso vínculo com eles.

Por outro lado, vocês lançaram recentemente o single “Se Desfez”. Sobre o que fala a música? Qual a inspiração por trás da canção?

Ronan: Sim, lançamos a música e o videoclipe no dia 3 de novembro. A resposta dos fãs e do público roqueiro no geral foi ótima. Tivemos 10 mil visualizações do vídeo em nosso Facebook. Novos seguidores e um engajamento muito acima do esperado em todas as redes sociais e plataformas de streaming. Foi uma surpresa muito positiva pra gente.

A canção “Se Desfez” fala sobre solidão, mas também da importância de seguir em frente mesmo com tudo ruindo ao redor. A inspiração veio de uma vivência minha, de relacionamentos passados colocados à tona e isso acabou gerando a música.

Nos últimos anos, vocês tem apostado em lançar material novo no formato de EP, ao invés de álbuns completos. Expliquem pra gente o motivo dessa estratégia.

Ronan: Em 2015, sacamos que o EP era mais viável para gente em todos os sentidos. A gente economizava grana, tempo e também energia. Gravar um álbum completo “suga” muita energia dos músicos. Ainda mais porque todos têm outras atividades de trabalhos e compromissos diversos. Com o EP, a banda consegue ter mais controle sobre as datas, prazos.

Mas, na nossa concepção, até o EP ficou para trás. Atualmente, estamos visando muito a produção de singles, o que é mais rápido ainda. Não dá mais para ficar acreditando em mídias como o CD, quando o mercado todo está voltado para streaming e vinil. Cerca de 80% de amigos e conhecidos nem tem mais onde tocar CDs. Dessa forma, fica difícil apostar.

Podemos esperar material novo para 2021?

Ronan: Sim, o lançamento está planejado para início de janeiro e, em primeira mão aqui para o ULTRAVERSO, soltamos o nome do single para vocês: “Purgatório: eu”. Trata-se de outra música com a qual ficamos muito felizes com o resultado. Em breve, nas nossas redes sociais.

O mercado da música está cada vez mais mutável. Ao mesmo tempo, um pouco mais democrático também. Como vocês enxergam a cena do rock no Rio de Janeiro? E qual espaço é ocupado pelo rock no Brasil hoje?

Ronan: Pois é. Todo dia é algo novo, uma “sacação” nova que surge e a gente tem que estar ligado. Aprendemos que o mais importante pra gente é ver nossos fãs, junto com a gente, felizes. Nós nos desgarramos totalmente do pensamento “romântico” de tocar na rádio, TV e fazer música “XYZ” para ter abertura nos veículos. Nossa plataforma hoje, em todos os sentidos, é o nosso fã! Então, temos que estar ligados nas ferramentas novas que surgem todos os dias pra chegar nele.

Sobre a cena no RJ, enxergamos com otimismo. Existem muitas bandas legais e acreditamos que, quando as coisas voltarem ao normal, a galera da cena estará mais consciente sobre o que devem fazer.

Móbile Drink (Divulgação)

A respeito do espaço ocupado pelo rock hoje, é bem engraçado. Pregam a morte do rock há séculos. Dizem que perdeu consistência, comparado a outros estilos como o rap, mas ele continua aí. O rock continua fazendo barulho! Uma galera boa tem aparecido na rede fazendo som. E, só por que o rock não aparece (ou aparece pouco) na TV ou nas listas de mais tocadas nas rádios, não significa que ele morreu! Não mesmo!

Na verdade, esses meios de comunicação não refletem mais o público roqueiro, que está todo ligado na internet e nos guetos do underground. Que é exatamente onde ele gosta de ficar. E de onde floresce tudo em seu momento propício e, de repente, deixa o mundo de pernas pro ar. O rock não é “o pai, nem avô, nem filho” dos atos subversivos. Ele é a própria subversão. Aguardemos (risos)! Agradecemos mais uma vez ao ULTRAVERSO pela oportunidade de trocar essa ideia, valeu!

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Então você é artista e acha que não tem muito espaço? Fique à vontade para divulgar seu trabalho na coluna Contra Corrente do ULTRAVERSO! Não fazemos qualquer distinção de gênero, apenas que a música seja boa e feita com paixão!

Além disso, claro, o (a) cantor(a) ou a banda precisa ter algo gravado com uma qualidade razoável. Afinal, só assim conseguiremos divulgar o seu trabalho.

Enfim, sem mais delongas, entre em contato pelo e-mail guilherme@ultraverso.com.br! Aquele abraço!

Guilherme Farizeli

Músico há mais de mil vidas. Profissional de Marketing apaixonado por cinema, séries, quadrinhos e futebol. Bijú lover. Um amante incondicional da arte, que acredita que ela deve ser sempre inclusiva, democrática e representativa. Remember, kids: vida sem arte, não é NADA!
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