Morre o ator Sidney Poitier, lenda que destruiu barreiras em Hollywood

Morre o ator Sidney Poitier, lenda que destruiu barreiras em Hollywood

Sidney Poitier, o renomado ator, diretor e ativista de Hollywood que comandava a tela, reformulou a cultura e abriu o caminho para inúmeros outros atores pretos com atuações emocionantes em clássicos como “Uma Voz nas Sombras” (1963), “No Calor da Noite” (1967) e “Adivinhe Quem Está Vindo Para o Jantar” (1967), morreu hoje nesta sexta-feira (7). A saber, a informação foi confirmada por Fred Mitchell, ministro das Relações Exteriores das Bahamas. Local onde o astro viveu seus últimos momentos.

O racismo, como mazela das mais cruéis e chocantes da humanidade, teve sua dinâmica representada muitas vezes pela arte. Nesse sentido, no cinema, os impactos deste cancro social promovem conscientização ante a sua repugnância devido à exposição extremamente visual. Contudo, antes dos grandes filmes sobre racismo ganharem destaque, existiu um herói que rompeu preconceitos destruiu barreiras, escancarou a hipocrisia e bateu na cara de uma sociedade extremamente racista. Esse ícone nos deixou hoje.

Pioneiro

Sidney Poitier se tornou o primeiro ator preto a vencer o Oscar em 1964, por seu trabalho em “Uma Voz nas Sombras” (1963). Ademais, ele já havia sido indicado na categoria de melhor ator por “Acorrentados” (1958). Poitier foi uma das últimas grandes estrelas sobreviventes da Idade de Ouro de Hollywood. Além disso, após a morte de Kirk Douglas em 2020, foi o mais velho vencedor do Oscar até sua morte em 2022.

Antes de tudo, talvez a nova geração até consiga compreender o que é lutar contra a correnteza forte do racismo. Afinal, numa época como a de hoje, podemos filmar, expôr, gritar e sacudir até que um preconceituoso caia. Talvez seja até compreensível ver em uníssono toda uma comunidade transbordar em fúria “Racistas Não Passarão” e ser ouvida. Nem sempre isso significa que seremos atendidos mas é bom deixar mais escuro o caminho para adoradores do fascismo tão em voga nos dias atuais.

O cinema além das telas

E a sétima arte, por exemplo, sempre teve papel fundamental na luta racial. Hattie McDaniel inaugurou a vitória preta na premiação da Academia em 1940, com “E O Vento Levou”. Mas foi com Sidney Poitier que o tema teve um avanço significativo.

Antes de tudo, sua contribuição ao cinema o colocou como o primeiro ator preto a figurar no panteão dos principais ídolos de Hollywood. Bem como foi o pontapé inicial para mudar a visão estereotipada dos artistas pretos em produções cinematográficas nos anos 1950 e 1960. Dessa forma, com o destaque e a profundidade de seus personagens aliados ao seu enorme talento, Sidney Poitier se transformou num mestre da dramaturgia. Não à toa, um de seus maiores sucessos se chama “Ao Mestre, Com Carinho”, obra de 1966.

Fiz filmes quando o único outro preto no local era o engraxate – como era o caso na MGM. Eu era o único cara preto na turma“, contou o ator à revista Newsweek em entrevista publicada em 1988.

Um artista, acima de tudo, consciente

Sidney Poitier sempre rejeitou papéis no cinema com base em estereótipos raciais ofensivos e foi amplamente aclamado por retratar homens dignos e extremamente inteligentes em marcos da década de 1960. Como no clássico policial vencedor do Oscar de Melhor Filme, “No Calor da Noite”, onde ele interpreta um detetive que chega em uma cidade extremamente racista para investigar um assassinato. É notória sua cena onde se apresenta (“They call me Mr. Tibbs”) aos policiais locais e é agredido por um deles. Seu personagem revida exatamente na mesma hora. Pro público foi um choque e Poitier já apontava ali que não seria mais um preto inofensivo na indústria. Ele estava ali para contra-atacar.

O ator Sidney Poitier

“Adivinhe Quem Vem Para o Jantar”, em mais uma mostra de sua forma de tacar fogo em racistas, foi filmado quando o casamento interracial ainda era ilegal em muitos estados estadunidenses. E foi um dos poucos na época a retratar essa relação de maneira favorável.

Poitier chegou a dizer que sentiu a responsabilidade de representar a excelência preta em uma era onde a grande maioria das estrelas de cinema eram brancas e muitos artistas afrodescendentes foram relegados a papéis menores ou de servidão. Antes de tudo, sua consciência social era admirada e seu porte real chamou atenção. Não é de se surpreender que tenha recebido o título de cavaleiro da Rainha Elizabeth II em 1974.

Onde tudo começou para Sidney Poitier?

Nascido em Miami, Sir Sidney L. Poitier cresceu nas Bahamas e era o caçula de sete filhos. Voltou aos Estados Unidos aos 15 anos e mudou para a cidade de Nova York. Possuía cidadania estadunidense e bahamense e diz a lenda que um garçom do restaurante onde trabalhava, sentou-se com ele todas as noites durante várias semanas, ajudando-o a aprender a ler o jornal. Durante a Segunda Guerra Mundial, em novembro de 1943, mentiu sobre sua idade e se alistou no Exército, onde recebeu treinamento para trabalhar com pacientes psiquiátricos. Logo depois, foi designado para um hospital da Administração de Veteranos em Nova York.

Posteriormente, depois de deixar o Exército, trabalhou como lavador de pratos até que um teste de sucesso lhe rendeu um papel em uma produção do American Negro Theatre e toda a sua história artística teve início. Sua estreia em filmes foi em 1947, no musical “Sepia Cinderella”. Foram mais de 40 títulos em toda a sua carreira.

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Reconhecimento

Além disso, um dos maiores astros de Hollywood, Denzel Washington elogiou Poitier quando se tornou o segundo homem preto a levar o Oscar de melhor ator com o filme “Dia de Treinamento”, de 2001, dizendo: “Sempre estarei atrás de você, Sidney. Sempre estarei seguindo seus passos. Não há nada que eu prefira fazer.”

Da mesma forma, Poitier recebeu um Oscar Honorário na mesma cerimônia por sua contribuição ao cinema. O artista foi casado por 45 anos com Joanna Shimkus. Com ela, teve seis filhos, incluindo a também atriz Sydney Tamiia Poitier.

Por fim, relembre esse momento emocionante, onde Sidney Poitier recebe o Oscar honorário

Quero que as pessoas sintam, ao saírem do cinema, que a vida e os seres humanos valem a pena. Essa é a minha única filosofia sobre os filmes que faço”, dizia Sidney Poitier.

Ao mestre, todo o nosso amor e saudade.

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