Não Olhe para Cima crítica do filme netflix

‘Não Olhe para Cima’| Um reflexo indesejado da nossa vida

Guilherme Farizeli

|

26 de dezembro de 2021

A Netflix estreou na última sexta-feira (24), o filme ‘Não Olhe para Cima‘. Recheado de estrelas, o aguardado novo longa de Adam McKay apresenta o já conhecido humor ácido do diretor, que também escreveu o roteiro ao lado de David Sirota. No entanto, ao contrário de suas obras mais recentes, ‘A Grande Aposta’ (que levou para casa o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado) e ‘Vice’, ambas cheias de tecnicismos, ‘Não Olhe para Cima’ é um filme mais direto.

O que não significa que sua mensagem seja mais simples de digerir. Ao contrário, se faz necessário um pouco de autocrítica para embarcar na onda de McKay. E convenhamos, na era do “moralmente superior” e do “morro, mas não admito estar errado”, é de se esperar alguma controvérsia em torno do filme.

“Ué, mas o filme é polêmico”? Definitivamente, não. Mas a gente tem que se lembrar sempre que vivemos nessa espécie de “Idiocracy” e que tudo que aconteceu com a pandemia só serviu para ampliar esse sentimento.

A trama

A premissa do filme já nos é apresentada logo no início. No observatório de astronomia da Michigan State University, a candidata à PhD Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) descobre um cometa. Festa! Mas nem tanto. Seu orientador, o Dr. Randall Mindy (Leonardo DiCaprio) calcula a trajetória do corpo celestial e descobre que ele está a caminho da Terra. Devido ao tamanho do “bicho”, o impacto com o nosso planeta vai causar nada mais, nada menos do que a sua destruição.

Com a ajuda do Dr. Teddy Oglethorpe (Rob Morgan), chefe do Escritório de Coordenação de Defesa Planetária (Planetary Defense Coordination Office, uma agência REAL), nossos intrépidos cientistas buscam levar o caso até o alto escalão do governo americano. Depois de muita luta e do contato com um general terrível (pra dizer o mínimo), eles chegam até o Salão Oval da Casa Branca.

Fosse um filme mais chato e um mundo normal, estaríamos já no terceiro ato da trama. Uma mistura de ‘Armagedom’ com ‘Tempestade: Planeta em Fúria’. Entretanto, como vivemos em “Idiocracy” e o filme ‘Não Olhe para Cima’ é um espelho impiedoso para nossa realidade, a “aventura” começa justamente aí.

Qualquer semelhança… é uma janela para a realidade

McKay acertou em cheio ao escalar atores fenomenais para dar voz aos comportamentos mais absurdos do filme. Afinal, o objetivo é retratar a realidade da forma mais fidedigna possível. O equilíbrio da história se dá justamente porque a troca entre os protagonistas e os vilões é perfeita. Os encontros dos cientistas com a presidente Janie Orlean (Meryl Streep) e seu chefe de gabinete/filho Jason (Jonah Hill) são hilários, com o texto ácido e rápido na vibe da série Sucession, onde McKay é produtor-executivo.

Nesse sentido, a jornalista sensacionalista Brie Evantee (Cate Blanchettt) é um show a parte! Usando uma prótese dentária para deixar os dentes (mais) perfeitos, ela é uma amálgama da busca incessante pelo visual “perfeito”. Harmonização facial for the win! Sua interação com o Dr. Mindy eleva ainda mais a performance de DiCaprio, uma espécie de Sancho Pança do fim do mundo. A cena em que os dois personagens encontram a esposa do cientista, June (Melanie Lynskey) é uma das melhores do longa!

Silenciados e silenciadores

O desespero de Kate, muito bem retratado por Jennifer Lawrence, causa um sentimento contínuo de agonia. Uma rápida passada pelas redes sociais pode confirmar essa sensação. Mas, como um filme de comédia pode causar essa reação? Justamente por essa desagradável semelhança com a nossa realidade. Ainda que não de forma premeditada, o longa funciona muito bem como uma metáfora para tudo que enfrentamos com a pandemia da Covid-19. A nossa incredulidade frente aos comportamentos mais idiotas do nosso mundo (inimigos da ciência, negacionistas, anti-vacinas, terraplanistas) é a mesma de Kate. Enfim, ela grita quando a gente não pode. Ou porque já estamos sem voz de tanto gritar.

Do mesmo modo, vale ressaltar a figura de Peter Isherwell, interpretado brilhantemente por Mark Rylance. Um bilionário do mundo da tecnologia que é mais perigoso que a presidente idiota de Streep. A figura introvertida e de fala mansa esconde um vilão sem escrúpulos e, acima de tudo, sem direito a redenção.

Conclusão

Como fã do trabalho de Adam McKay, me reservo ao direito de considerar ‘Não Olhe para Cima’ como um filme um pouco abaixo dos dois últimos longas do diretor. Por outro lado, esse é, sem dúvida, seu trabalho mais acessível. E aquele que mais vai gerar discussão. Antes de tudo, o cinema de qualidade é aquele capaz de mexer com as suas emoções e provocar algum tipo de reflexão. Ao “simplificar” seu texto e sua abordagem, McKay mira no objetivo maior do filme, que é de provocar algum tipo de mudança. A mensagem não poderia ser mais clara: vivemos em uma sociedade idiota. Que a gente possa, então, evoluir, aprender e melhorar. E tomara que a gente consiga fazer isso sem a sombra de um meteoro sob nossas cabeças.

Onde assistir ao filme Não Olhe para Cima?

A saber, o filme Não Olhe para Cima está disponível para assinantes da Netflix. Aliás, vai comprar algo na Amazon? Então apoie o ULTRAVERSO comprando pelo nosso link: https://amzn.to/3mj4gJa.

Trailer do filme Não Olhe para Cima, da Netflix

Não Olhe para Cima: elenco do filme (Netflix)

Leonardo DiCaprio
Jennifer Lawrence
Meryl Streep
Cate Blanchett
Jonah Hill
Mark Rylance
Melanie Lynskey
Timothée Chalamet
Ron Perlman
Ariana Grande

Ficha Técnica

Título original: Don’t Look Up
Direção: Adam McKay
Roteiro: Adam McKay e David Sirota
Duração: 138 minutos
País: Estados Unidos
Gênero: comédia, drama e ficção científica
Classificação: 16 anos

Guilherme Farizeli

Músico há mais de mil vidas. Profissional de Marketing apaixonado por cinema, séries, quadrinhos e futebol. Bijú lover. Um amante incondicional da arte, que acredita que ela deve ser sempre inclusiva, democrática e representativa. Remember, kids: vida sem arte, não é NADA!
9
Créditos Galáticos

Créditos Galáticos: 9

Livros e Quadrinhos ‘Operação Obscura’ ‘Coração Marcado’ ‘Lua de Mel com a Minha Mãe’ ‘Bubble’ ‘Rumspringa’ SEC AWARDS 2022 A Megera Domada – Crítica do Filme