‘Flop’ é hit ao contrário? Pesquisador Eduardo Rodrigues explica o fracasso na Cultura Pop

‘Flop’ é hit ao contrário? Pesquisador Eduardo Rodrigues explica o fracasso na Cultura Pop

A entrevista desta terça-feira (11) no projeto ULTRAVERSO ACADÊMICO é com o pesquisador Eduardo Rodrigues, que vai explicar, de forma minuciosa, o que significa e quando é considerado ‘Flop’.

Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); bem como graduado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal de Pernambuco em 2017, Eduardo também é integrante do Grupo de Pesquisa em Cultura Pop e Entretenimento (GruPOP), vinculado ao PPGCOM-UFPE.

Além disso, tem experiência profissional nos segmentos de gestão de projetos, planejamento estratégico, atendimento publicitário e social media. Em suma, na área acadêmica, possui interesses que envolvem música e cultura pop, performance e redes sociais. 

Enfim, confira a entrevista de Eduardo Rodrigues sobre o que é ‘Flop’ para o ULTRAVERSO ACADÊMICO:

Quais foram os caminhos que o levaram a estudar o Flop? Por que você resolveu iniciar esse estudo?

Eduardo Rodrigues: Antes de estudar Música e Cultura Pop, sempre fui um apaixonado por esse universo. Ou seja, antes de me tornar pesquisador na área, fui e continuo sendo um fã. Acredito que a curiosidade de fã é o que movimenta grande parte dos meus estudos.

Então eu tinha o costume de acompanhar matérias e conteúdos sobre diversos artistas, até que percebi que um dos assuntos que mais virou pauta nos portais de notícias, e consequentemente entre os próprios fãs, era o desempenho de vendas de álbuns.

No jornalismo pop e no consumo pop existe muito essa preocupação em saber se determinado artista vai superar o número de vendas do seu trabalho anterior; se vai pegar o primeiro lugar nas paradas musicais; se vai quebrar algum recorde, por exemplo.

Portanto, comecei a entender que esse horizonte de expectativas comerciais faz parte de um jogo de valorações na música pop, como uma espécie de selo de qualidade ou de legitimação. Ao longo do tempo, vi que praticamente nenhum artista escapava do temido fracasso, mesmo que fosse uma especulação.

Por ser um debate um tanto nebuloso, decidi estudar no mestrado essa ideia de insucesso, me atendo a como ele se incorpora nas dinâmicas digitais. Além disso, sempre me chamou muita atenção os artistas fracassados que eram chamados de defeituosos. Me intriga saber porque eles são reconhecidos assim.

De onde veio o termo ‘Flop’ e como ele se insere na Cultura Pop?

Eduardo Rodrigues: o termo “Flop” tem origem inglesa e é uma espécie de gíria ou palavra mais informal para designar fracasso. Aqui no Brasil, especialmente na internet, pegamos emprestado esse termo e criamos o verbo “Flopar”.

Como a Cultura Pop possui uma orientação comercial bastante demarcada, essa preocupação com vendas está inserida nas lógicas de consumo pop. Não é à toa que álbuns, filmes e demais produtos são promovidos em cima do êxito financeiro que eles tiveram.

É comum ver a notícia que um filme é bom porque foi um sucesso de bilheteria ou que determinado álbum é interessante porque ficou no primeiro lugar de vendas por várias semanas. Não há como ignorar essa premissa comercial nos estudos de Cultura Pop. Contudo, ela é só a pontinha do iceberg, porque existem outras dinâmicas que também merecem ser observadas. Em especial, se nos determos a debates políticos, estéticos, sociais e culturais que a Cultura Pop também fomenta.

De que forma podemos entender o ‘Flop’ como um desdobramento do fracasso?

Eduardo Rodrigues: Fracassar significa falhar, pressupõe que algo foi feito errado. Então entender o “Flop” de artistas pop significa, na verdade, observar um movimento contrário a um modelo que é chamado de “certo”, isto é, o sucesso.

E o sucesso é embebido de regras, de regulações, de normatividade. O fracasso não! Ele é a quebra de regras em um ambiente de alta visibilidade. É um fracasso em que todos estão prestando atenção. É por isso também que podemos chegar a um debate qualitativo quando traçamos alguns paralelos do que foi taxado como fracasso e o que não foi.

Por exemplo: as mulheres são cobradas duas vezes mais que os homens na indústria musical e artistas negros quando cometem um deslize não possuem a mesma chance de se recuperar, se comparados com artistas brancos.

Entra em pauta aí um debate social importante para entender quem são as figuras que estampam a ideia de fracasso com maior filiação. Aconselho dar uma lida em Jack Halberstam, autor de A Arte Queer do Fracasso, em que ele chama atenção justamente para como o fracasso evidencia possibilidades de vivência para pessoas Queer ao analisar grandes filmes do cinema mainstream.

Quais métricas na cultura digital definem um Flop?

Eduardo Rodrigues: A cultura digital expandiu o debate sobre o “Flop” porque a internet pega toda essa ideia quantitativa de vendas e lhe concede um novo sentido. É como se a internet corporificasse o fracasso e nos fornecesse materialidades para observamos esse fenômeno que estão visíveis em posts, likes, comentários, compartilhamentos, fotos, vídeos etc.

Graças às redes sociais, por exemplo, vemos debates calorosos de fãs sobre o desempenho de vendas dos seus artistas favoritos que se transformam em memes.

Os memes, apenas para citar um dos caminhos possíveis, são ótimos para avaliar o que é considerado valioso para os fãs, o que é passível de virar piada, o que importa para a discussão, quem protagoniza esse meme, onde ele é compartilhado e por aí vai. 

O que você entende pela expressão ‘o flop é hit ao contrário’?

Eduardo Rodrigues: Acredito que seja uma definição bem resumida para entender o que é “Flop”. “Hit” é justamente o que fez muito sucesso, o que vendeu muito, e o “Flop” seria o oposto.

Contudo, não podemos esquecer que estamos falando de “fracassos” que acontecem em um ambiente de muita visibilidade e projeção. São fracassos midiatizados que geram grandes repercussões. Se realmente fosse um fiasco ao pé da letra, talvez nós nem saberíamos da existência, o que não é o caso.

Um dos maiores exemplos de “Flop” é o álbum Witness, de Katy Perry, lançado em 2017. E dificilmente um consumidor de música pop o desconhece ou não sabe quem é a cantora.

Por isso é importante ter em mente essa dimensão midiática em que os fenômenos acontecem porque ela interfere na maneira como percebemos o fracasso. Para leitura, recomendo Hit Makers, de Derek Thompson. O autor traz uma abordagem sobre a estética de grandes hits da Cultura Pop.

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