Representação e representatividade na cultura pop, com Lucas Goulart

Representação e representatividade na cultura pop, com Lucas Goulart

Representatividade importa, mas só ela basta? O ULTRAVERSO ACADÊMICO, desta vez, conversa com o pesquisador Lucas Goulart sobre representação e representatividade na cultura pop.

Nosso convidado de hoje é graduado em Psicologia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (2008); bem como mestre em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2012); assim como doutor em Psicologia pela mesma instituição (2017). Além disso, tem interesses de pesquisa, principalmente nos seguintes temas: gênero, sexualidade, teoria queer, jogos digitais e novas tecnologias de informação.

Confira em seguida a entrevista de Lucas Goulart para o ULTRAVERSO ACADÊMICO sobre representação e representatividade na cultura pop.

Como você vê a evolução das discussões sobre representatividade na cultura pop dos últimos anos, dos espaços acadêmicos para a mídia mainstream, principalmente com a participação do público nas redes sociais?

Lucas Goulart: A relação entre academia e redes sociais é bastante interessante. Vejo que existe ao mesmo tempo uma “diáspora” de conteúdos inicialmente veiculados academicamente para meios digitais, assim como uma alta de produções acadêmicas em temas que estejam com relevância. E acho que a relação entre esses espaços é uma discussão subrepresentada academicamente.

Em relação aos estudos sobre representatividade em si, por um lado temos a ascensão do que algumas autoras (especialmente a Adriana Amaral) tem reconhecido como “fandoms militantes”. Ou seja, discussões específicas sobre produtos fantásticos da cultura pop frente a teorias críticas de gênero, sexualidade e raça.

Por outro lado, discussões a respeito de uma maior presença de pessoas não-masculinas, não-cisheterrossexuais e não-brancas na cultura pop cresceram exponencialmente no momento em que movimentos sociais conseguiram importantes conquistas institucionais (leis anti-racismo, aprovação de casamento entre pessoas do mesmo sexo) e voltaram-se para temas culturais e do cotidiano. Pauta iniciada desde o advento dos chamados “novos movimentos sociais” ao fim da ditadura militar brasileira.

Paradoxal politicamente

O aparecimento dessas discussões nas redes sociais acabou se mostrando paradoxal em termos políticos. Por um lado, deu visibilidade a esses temas. O que acabou forçando também o mercado a repensar suas produções, trazendo essas discussões a um público mais amplo.

Por outro lado, também propicia a ascensão de figuras como as que Richard Miskolci chama de “empreendedores morais”. Uma dinâmica de produção de capital cultural ligado a essas questões de forma moralista e autoritária. Diminuindo, assim, possibilidades de aliança entre movimentos e muitas vezes ignorando os impactos materiais da representatividade.

Qual a importância de uma representação diversa de personagens na cultura pop para a qualidade de vida de pessoas de minorias. E quais são as suas limitações neste mesmo sentido?

Lucas Goulart: Embora eu não seja muito adepto de Jung, gosto muito de uma compreensão dele, de que muitas vezes as pessoas adoecem por falta de histórias. Isso porque essas narrativas fantásticas (da qual a Cultura Pop é majoritariamente constituída) acabam oferecendo uma expansão das possibilidades simbólicas. Ou seja, ofertando novas compreensões da nossa realidade. Retirando as pessoas daquilo que já foi “colonizado” por lógicas como o capital, a heteronormatividade ou a supremacia branca, por exemplo.

No momento em que existem representações diversas e, principalmente, produtores de diferentes locais de fala nessas culturas, ainda mais elementos de realidade podem ser rearranjados e deslocados. Abrindo para novos significados.

Público-alvo e contemplação

Não gosto da visão de “representatividade” enquanto público-alvo; ou ainda de uma “representatividade” feita puramente para que as pessoas se sintam “contempladas”. Trabalhos como os de Adrienne Shawn demonstram que esse processo de identificação identitária direta não é necessariamente o que as pessoas procuram nesses conteúdos.

Acho mais potente pensar que conteúdos de/com pessoas ditas “diversas” (não-masculinas, não-brancas, não-heterossexuais, não-cisgêneras) oferecem espaço para produções localizadas, possíveis apenas com experiências socialmente invisiblizadas, que assim expandem os conteúdos simbólicos inicialmente propostos.

Acho isso importante sim para pessoas que estão nessas posições de identidade, mas não apenas para elas. Gosto de compreensões como a de Judith Butler sobre despossessão, onde a ética só é possível no encontro com aquele que é radicalmente diferente de nós, e acho que a Cultura Pop com sua proposta eminentemente fantástica facilita esse encontro.

Existe uma relação entre o ganho de visibilidade das discussões sobre diversidade nas redes sociais e os movimentos reacionários que atacam iniciativas de inclusão? Como esses grupos e discursos se relacionam nos espaços de disputa das mídias sociais?

Lucas Goulart: Sim, essa relação existe. O histórico da cultura pop traz em si a produção identitária do “nerd”, ligada a questões de supremacia masculina, branca e cis-heterossexual. Conjuntamente à visão de que a Cultura Pop seria um empreendimento escapista – ou seja, aonde pessoas que se enxergam enquanto “desajustadas” acessam para esquecer-se de uma dita “realidade material opressora” – a entrada de temas e tropos que ameaçam estas supremacias são vistas como potencialmente ameaçadoras à própria existência da Cultura Pop.

Nas redes sociais mais tradicionais, a disputa por espaços acaba aparecendo como um embate acerca puramente de visibilidades identitárias, por vezes caricato. O uso de slogans proto-publicitários (“quem lacra não lucra”, “representatividade importa”, “vai ter diversidade sim!”) e a produção de caricaturas e modelos simplistas de quem seriam esses grupos acaba produzindo espaços de pouca possibilidade de produção coletiva.

Isso acontece pela própria natureza dos algoritmos, onde já foi demonstrado que manifestações de cunho simplista e agressivo geram mais engajamento. Logo acabam sendo mais visíveis. A demonstração do embate sobre diversidade nesses termos acaba sendo pouco material, ignorando questões como: qual seria realmente a experiência de pessoas “diversas” com essas mídias; como o mercado de trabalho de produções de produtos da Cultura Pop tem funcionado; ou como violências de cunho micro-político contra grupos ligados a diversidade continuam acontecendo.

Ao contrário do que quem afirma que ‘quem lacra não lucra’ acredita, produtos de cultura pop com representação diversa estão se mostrando muito lucrativos. Você acha que isso traz um certo esvaziamento dessas discussões na mídia, ou o lado positivo prevalece?

Lucas Goulart: O problema maior não é a “representação” em si, ou o investimento político nessa, mas a visão de que esta seria o objetivo dos movimentos sociais que se relacionam com a cultura pop. Este tipo de compreensão acaba outorgando ao mercado o papel de instância que reconhece a diversidade como importante – quando lucrar e existir “representação” diversa em produtos de mídia compostos por conglomerados multinacionais é a medida do sucesso dos movimentos sociais.

Esse tipo de dinâmica traz três problemas principais. Por um lado, a diminuição de produtos independentes, que são menos expostos a ferramentas viciadas do mercado mainstream (testes de audiência, a concepção de “públicos-alvo”, relações internacionais). Por outro, repete a relação já conhecida dos movimentos sociais de “olimpíada da opressão”.

Ou seja, a dinâmica social de que diversos movimentos “diversos” (feministas, LGBTs, movimentos negros, movimentos por deficiência, etc) acabam competindo entre si por verbas estatais. Mas que, nesse caso, se refere à visibilidade de multinacionais privadas e também a manutenção do capital em grandes instituições voltadas para o lucro privado em detrimento a iniciativas de cunho coletivo e comunitário.

Como podemos pensar inclusão e diversidade além da representação? 

Lucas Goulart: Creio que temos de retornar para comunidades locais, em um primeiro momento. A proposição de grupos de leituras críticos é interessante, visando compor espaços de narração de experiências dos sujeitos e coletivos em contato com a cultura pop. É preciso nos perguntar: “se a representatividade importa, importa por que?”.

Em segundo lugar, é importante nos perguntar como fazer para que a diversidade deixe de ser apenas um commodity para se tornar efetivamente um instrumento de transformação material. Empresas de jogos que promovem materiais ditos “inclusivos” têm aparecido com sérias problemáticas do ponto de vista trabalhista e de assédio, especialmente sexual. Acho que isso só é possível se deixarmos de considerar a representação dentro de um escopo quantitativo (ser mais ou menos “diverso”) e moral (aonde ser mais ou menos “diverso” traria maior consciência e agregaria valor simbólico a produtos de mídia).

Sair desses escopos quantitativos e morais, e nos voltarmos para uma instância de experiência localizada e dos impactos materiais às quais esse tipo de produção tem oferecido me parece uma alternativa às maneiras às quais a representação tem aparecido hoje.

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