RESENHA | EVANGELHO DE SANGUE, de Clive Barker, ou “Não me chame de pinhead, eu odeio esse apelido!!!”

RESENHA | EVANGELHO DE SANGUE, de Clive Barker, ou “Não me chame de pinhead, eu odeio esse apelido!!!”

Atenção: Para não aborrecer os amiguinhos, esse texto não possui spoilers!

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Quando pensamos em Clive Barker, geralmente nos vem à memória sua criação máxima (pelo menos no quesito popularidade): “Hellraiser”. Pinhead, seus cenobitas e a caixa de LeMarchand são o gatilho automático que nos leva a uma associação imediata ao nome de seu criador, mas, pelo menos aqui em nossas terras, pouco mais se conhece do trabalho deste autor inglês além disso. O que também é relativamente desconhecido por aqui é o fato de que Barker é um artista multimídia: escritor, roteirista, cineasta, produtor de cinema, roteirista de quadrinhos (além de expandir o universo de Hellraiser em HQs, criou a linha Razorline, dentro do selo Epic, que seria mais ou menos como a Vertigo da Marvel, também conhecido como o “Barkerverse”), dramaturgo, artista plástico e até desenvolvedor de games.

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Preview da linha Razorline pelo selo epic

Para quem está familiarizado com a obra do autor, sabe que sua prosa não tem filtros para suavizar as cenas extremas e brutais que ele cria, com doses generosas de erotismo e escatologia, visões tenebrosas e cenários pessimistas, onde muitas vezes seus protagonistas não têm a menor chance de escapatória, restando a resignação perante o poderoso e absoluto horror do desconhecido. O próprio Stephen King afirmou nos anos 80: “Eu vi o futuro do Horror… E seu nome é Clive Barker”. Com um padrinho desses, não poderia ter começado melhor.

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Clive Barker

Não podemos reclamar que a obra dele nos é completamente desconhecida, mas as poucas vezes em que editoras brasileiras se aventuraram a lançar livros dele são esparsas e não deram conta de sua extensa bibliografia, e mesmo os livros que saíram aqui, como a cobiçada (e ótima) série “Livros de sangue” ou “O desfiladeiro de medo” se tornaram o santo Graal entre seus fãs e colecionadores, alcançando preços exorbitantes nas ‘internetes’ por falta de alguma editora que os republique.

Retificando velhos erros (como diria Jakita Wagner em Planetary, “Quem é que fala assim hoje em dia???”), a editora Darkside, que tem nos surpreendido positivamente já faz alguns anos com seu catálogo pavoroso, lançou no ano passado o livro “Hellraiser” (bem, antes tarde do que nunca!), com uma edição tão caprichada e primorosa que arrancou elogios – merecidíssimos! – do próprio pai da criança: Barker afirmou ser uma das mais belas edições de “Hellraiser” já publicadas até hoje.

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A belíssima edição de “Hellraiser” da Darkside Books

Mas não estou aqui pra falar de um livro de 30 anos atrás, e sim de sua sequência, “O evangelho de sangue”. Publicada no ano passado lá fora, retornamos ao universo de tormentos do titio Barker. A trama começa em um sensacional prólogo, quando um pequeno grupo de magos se reúne em um mausoléu para trazer um deles de volta a vida, e discutirem a respeito da entidade que está assassinando todos os magos da Terra, um a um, com o intuito de roubar seus livros e objetos de poder. Logo descobrimos quem está por trás disso: o próprio Pinhead, – que aliás, odeia este apelido! – o Sacerdote do Inferno em pessoa, que arquitetou um plano para acumular poder e dar um golpe de estado no próprio inferno!

pinhead_by_sandara-d8rgcx0Paralelamente, Harry D’Amour se encontra em sua rotina de serviços estranhos, em que tem de eliminar evidências e objetos de um mago diletante recém falecido, para que sua família não descubra no que este aparentemente idôneo cidadão se envolvia em vida (uma boa analogia para isso é aquele acordo que você firmou com um amiguinho para, no caso de sua morte, apagar toda a pornografia de seu computador antes que sua mãe ou irmão mais novo vejam o tipo de pornografia bizarra que você curtia hehehe). O serviço “de rotina”, na verdade se revela uma armadilha, que acaba culminando no seqüestro de sua amiga e companheira de trabalho, Norma, uma poderosa médium capaz de se comunicar com os mortos. Com norma nas mãos do Sacerdote do Inferno, Cabe a D’Amour e alguns amigos mergulharem de cabeça no inferno para uma insana missão de resgate.

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Brinde desse post: Uma caixa LeMarchand para você montar e brincar! Até nunca mais!

Agora, aqui cabe um parêntese para falarmos um pouco do protagonista de “Evangelho de sangue”, o detetive Harry D’Amour. Um investigador particular, um detetive do oculto. Melhor seria, para efeitos de comparação, defini-lo como um cruzamento de Mike Hammer com John Constantine, como se escritores como Dashiell Hammett, Raymond Chandler, ou Mickey Spillane adicionassem pitadas de ocultismo e demonologia ao noir que permeia suas obras, no gênero conhecido lá fora comoAmerican Crime Novel. A primeira aparição de D’Amour na bibliografia de Barker se deu no sexto volume de Livros de Sangue (Editora Civilização Brasileira, 1996), no excelente conto “A última ilusão”.  De lá pra cá, D’Amour figurou rapidamente no livro “The great and secret show” (não publicado no Brasil); em seguida novamente em um conto, chamado “The lost souls” (também inédito no Brasil); retornou em uma participação maior no livro “Everville” (também inédito no Brasil) e finalmente antagonizou com Pinhead em “Evangelho de sangue”. Além disso, o personagem deu as caras na publicação em quadrinhos de Hellraiser, da editora americana BOOM! Studios (Se não me engano, essas edições saíram aqui no Brasil no encadernado “The dark watch”). Também não posso me esquecer de mencionar que Harry D’Amour foi interpretado pelo ator Scott Bakula no filme “O mestre das ilusões”, de 1995, dirigido pelo próprio Barker, e que adapta livremente o conto “A última ilusão”. Não que para curtir “Evangelho de Sangue“ o leitor seja obrigado a ter lido as aparições prévias do detetive do oculto nas outras histórias de Barker. Eu mesmo só li “A última ilusão”, e já me foi o suficiente pra ficar animado quando soube que D’Amour seria o personagem que nos conduziria em “Evangelho de sangue”. Bateu aquela sensação de rever um velho conhecido, tão consistente é o desenvolvimento de D’Amour no conto. Porém, mesmo alguém que não tenha lido nada dele antes não ficaria perdido, já que Barker o apresenta e desenvolve muito bem no decorrer do livro, inclusive com um flashback fantástico de D’Amour ainda como policial em Nova Iorque, e os eventos tenebrosos que o levaram a sair da força policial, numa ocorrência infernal para Constantine nenhum botar defeito. Vejamos cada história de Harry D’Amour como um caso da longa e sinistra carreira do detetive do sobrenatural, e “Evangelho de sangue” é o caso que mais exigiu do personagem até agora, inclusive, forçando o personagem a uma transição, uma mudança de rumo interessante, que nos faz aguardar com expectativa o próximo volume.

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O personagem Harry D’Amour no filme “O mestre das ilusões”

Seguindo Harry e seu pequeno grupo de amigos fiéis, os Atormentadores, à medida que avançam em busca de Norma, vislumbramos a pavorosa geografia infernal, que em muitas passagens descritas por Barker lembram as pinturas de Wayne Barlowe, um artista que nos dá a impressão de ter visitado o inferno algumas vezes, dada a quantidade de detalhes mórbidos em suas paisagens do Abismo. Além disso, Barker esmiúça as relações políticas no inferno, e onde a ordem de Pinhead se encaixa neste contexto. Também vemos o Lúcifer mais astuto e poderoso desde o arco “Estação das brumas”, publicado na HQ Sandman, de Neil Gaiman.

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Wayne Barlowe, um pintor dos infernos

 Quanto a pontos desfavoráveis do livro, tenho apenas um a ressaltar, na verdade uma crítica positiva para a nossa amada editora da caveirinha: o texto careceu de revisão. A todo momento, esbarramos em erros de revisão durante a leitura, algumas palavras com letras trocadas ou palavras no plural sem o “s” aqui e ali, mas nada que desabone a obra em si. Repito: Isso é somente uma crítica construtiva, algo que outros internautas por aí têm enfatizado, e que tem ocorrido com certa freqüência em várias publicações de diversas editoras. Pelo volume de livros publicados, é perfeitamente compreensível, mas se a gente não reclamar de alguma coisa, não tem graça heheheh…… Se bem que com uma capa dessas, dá até uma certa sensação de culpa de falar de qualquer probleminha que a edição possa ter rs!

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Essa capa, senhoras e senhores….. essa capa…..

 Encerro por aqui conclamando a todos os leitores de horror: roguemos à editora Darkside, para que seja fulminada pelo feixe de luz negra de Lorde Leviatã, e que tenhamos mais e mais obras de Clive Barker publicadas por aqui. Ele ainda tem tantas visões para nos mostrar….

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Texto gentilmente cedido pelo blog Zona Negativa

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