A importância da escritora brasileira Carolina Maria de Jesus para a literatura é indubitável. Quarto de despejo: diário de uma favelada, sua obra mais conhecida e publicada em 1960, não apenas denuncia a miséria na favela do Canindé, em São Paulo, como também revela uma autora com um senso de observação e espírito crítico aguçados. Além de relatar acontecimentos que mostravam o sofrimento, as brigas, as relações com seus vizinhos e entre eles, destacam-se também seus comentários sobre a política brasileira.
Embora seja conhecida principalmente por esse livro, existe muito mais por trás da história da autora do que aquilo que é conhecido pelo público. Em Carolina – uma biografia, o jornalista Tom Farias apresenta diversas facetas da escritora que foi constantemente descrita como uma favelada, mas que era muito mais do que isso. Nascida em Sacramento (Minas Gerais), ela passou a juventude em busca de tratamento para uma doença nas pernas. A escritora negra não trabalhou apenas como catadora de lixo. Embora viesse de uma família iletrada e soubesse ler e escrever, suas opções de trabalho se restringiam à atuação como cozinheira e empregada doméstica. No entanto, o sonho de ser escritora fazia com que tivesse uma aversão cada vez maior a esses trabalhos e desejasse distância dos fogões.
Seu amor pelos livros era fascinante e ela os guardava como verdadeiros tesouros. Carolina visitou redações de jornais em busca de reconhecimento e chegou a publicar alguns textos. Porém, a publicação de Quarto de despejo ocorreu graças ao encontro com o jornalista Audálio Dantas na favela do Canindé. A relação entre ambos, conforme mostra o jornalista, era bastante dúbia e ora Carolina o elogiava e o agradecia e ora o criticava por administrar seu dinheiro e tolhê-la. Se ela conquistou muito reconhecimento com o livro, isso não impediu que sua escrita fosse questionada e que ela fosse retratada sob o viés da miséria. A escritora que vivia faminta conseguiu comprar sua casa em Santana, na Zona Norte de São Paulo, saiu da favela, proporcionou conforto e educação aos três filhos, mas isso não a impediu de ficar no ostracismo e de enfrentar muitas dificuldades financeiras após o período de fama internacional.
O biógrafo chega a relatar que, mesmo após o sucesso e a publicação, Carolina deparou-se com a angústia de não ter o que dar de comer aos filhos e precisou procurar pessoas que lhe dessem um pedaço de pão. Sua vida dedicada à escrita deixou diversos trabalhos que não são tão difundidos e que merecem ser reeditados. Se a biografia faz um trabalho fundamental de resgate da trajetória de Carolina Maria de Jesus, faltou uma revisão mais cuidadosa; há muitos erros de digitação e outras falhas que devem ser corrigidas. Mais recentemente, foi publicado também o livro Meu sonho é escrever – contos inéditos e outros escritos, que reúne histórias da autora até então desconhecidas.
Ficha técnica
Título: Carolina, uma biografia
Autor: Tom Farias
Editora: Malê
Ano: 2018
Especificações: Brochura, 402 páginas