A bela e imponente Cordilheira dos Andes. Seus picos nevados de beleza esplendorosa. É a primeira imagem que surge no documentário Santiago, Itália. Começa belo, mas segue mostrando uma realidade pesada.
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Reflexões de uma triste história
De fato, um filme que traz reflexões e mostra um lado de uma triste história. Para mim, trouxe muitas reflexões sobre o ser humano, esperança, bem como desespero. A melancolia de ver brigas tão ferrenhas por causa de ideologias. É como quando torcedores de times distintos se matam. Algo inacreditável. A vida é algo tão único e importante que não pode ser tratada dessa forma. Toda vida tem razão de ser.
A saber, estamos no Chile. Vamos ouvindo sobre um grupo, a Unidad Popular, que vigora de 1970 a 1973. Sonhadores? Idealistas? Não dá para saber. A cidade é Santiago e vemos um grande número de pessoas felizes com a vitória de seu candidato eleito democraticamente: Salvador Allende.
Porém, esta vitória não agrada outros. Democracia é assim, né? A maioria não quer dizer todos. Uma frase é dita: “democracia só é bom quando serve os poderosos”. Faz pensar.

A crueldade humana
Em 11 de setembro de 1973, os militares derrubam Allende. A força aérea chilena bombardeia o palácio do governo. É uma cena difícil de acreditar. Como assim?!? Até agora me sinto chocado. Salvador Allende está morto. Não sabemos se foi suicídio ou assassinato. Agora, é hora de caçar seus apoiadores.
Como pode a criatura humana ser dotada de tamanha crueldade e desdém pela vida? Diferenças ideológicas criam guerras, mortes desnecessárias. O fanatismo, o radicalismo, seja para o lado que for, é péssimo. Tortura? Existe ato mais sadicamente demoníaco?

Nanni Moretti, o documentarista, não se põe como imparcial em momento algum. Pelo contrário. Além disso, em certo momento, perante um militar que entrevistava, afirma sua parcialidade. O formato de Santiago, Itália é “quadrado”, naquele estilo de entrevistas. É basicamente composto por relatos de um grupo de pessoas que acaba se refugiando na embaixada italiana, durante um período de repressão. Dali, seguem para a Itália como exilados políticos. Claramente é escolha do diretor, não utilizar tanto imagens de arquivo e focar nos relatos. Dores, mágoas e traumas contadas por artistas, empresários, trabalhadores, advogados, professores e diplomatas que militavam pelo que acreditavam. Passagens tocantes, certamente, como o ateu grato e emocionado (não consegue conter o choro) por um cardeal que ajudava os perseguidos e salvou várias vidas. Não é isso o que a religião ensina? Ou deveria ensinar?
Combate ao autoritarismo
Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’. “Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’ “O Rei responderá: ‘Digo a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’. Essa é uma passagem bíblica: Mateus 25:35-40.
De fato, a parte boa é ver como a Itália combateu o autoritarismo e optou pela solidariedade (daí o nome do filme). É… só que, no fim, um chileno morador da Itália diz que já não é mais assim, pois a sociedade do consumo e o individualismo estão predominando hoje. Enquanto escrevo, acabo de ver uma notícia informando que a Itália aprovou um decreto que prevê multa de até 50 mil euros para embarcações que resgatarem imigrantes e refugiados no Mar Mediterrâneo. Mesmo com o altíssimo índice de mortes que ocorrem durante a travessia. Sendo que a lei internacional determina que o resgate de náufragos em águas internacionais é obrigação das embarcações que estiverem próximas. Salvar vidas não pode ser crime.

O realista esperançoso
Calma (digo para mim mesmo), a humanidade já foi muito pior, estamos caminhando. No passado, as guerras eram muito mais comuns, barbaridades, crueldades. Contudo, não podemos retroceder. Há sim a necessidade de sermos cada vez mais tolerantes, capazes do diálogo, de buscar uma harmonia. Sejamos movidos sobretudo pelo amor! Ódio não! Solidariedade. Que palavra linda. Acima de tudo, necessária.
Em suma, Santiago, Itália, em verdade, não passa esse recado. Pelo contrário, é pessimista (realista?). Ah, fico com a frase do escritor da obra-prima “O Auto da Compadecida”, Ariano Suassuna: “O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”.
Vai melhorar. Tem que melhorar.
::: TRAILER
::: FICHA TÉCNICA
Título original: Santiago, Itália
Direção: Nanni Moretti
Roteiro: Nanni Moretti
Elenco: Nanni Moretti
Distribuição: Pandora Filmes
Data de estreia: qui, 20/06/19
País: Itália, França, Chile
Gênero: documentário
Ano de produção: 2018
Duração: 80 minutos
Classificação: 12 anos